Halloween em Lendas: A Moça sem Face




Olá leitores, como estão?

Ano passado, o blog ainda era um bebê recém nascido, então não preparei nada mais voltado para o Halloween, só postei uma lenda aqui da minha cidade, Belém - Pa, a lenda da Moça do Táxi, que você pode ler aqui.

Esse ano, resolvi fazer as postagens do Halloween relacionadas com as lendas urbanas daqui de Belém, que são bem fortes por aqui. Desde de criança vamos escutando essas histórias, ou como os antigos dizem, causos e vai passando de geração para geração. 

E para não se perder, essas lendas foram reunidas em um livro chamado Visagens e Assombrações de Belém, do autor Walcyr Monteiro. Desse livro, selecionei algumas lendas para apresentar à vocês.

E vamos iniciar pela lenda da Moça sem Face...Senta aí, pega um café e curta a história...




" Vinícius era soldado do Núcleo do Parque de Aeronáutica de Belém. Brincalhão, bom camarada, era querido por seus companheiros de farda e superiores. Contador de anedotas, onde estivesse nos momentos de folga sempre tinha uma roda em volta. Estudante, fizera até a 4ª série ginasial antes de ingressar na caserna. Festeiro, frequentador das gafieiras de Belém, principalmente as do bairro de Marco, da Pedreira e de Canudos, era tido como bom dançador de merengue. Quantas vezes Vinícius não “pulou” serviço para “balançar o esqueleto” num dançará suburbano! Em várias ocasiões esteve para ser preso por tal motivo. Nunca dava alterações de outra natureza, mas se sabia que havia um “samba”, Vinícius, estivesse ou não de serviço, ia bater lá. Fugia do quartel e ingressava triunfalmente na sede onde se ouvia o La Bamba ou outro sucesso musical da época. Depois, era arranjar uma “amiguinha” e pronto… veria depois.

 Parque da Aeronáutica de Belém
 
Conhecia as histórias de aparições que se contavam do Parque, mas não lhes dava muita importância. Pelo menos dizia. E afirmava mesmo que, se visse alguma coisa, ia dirigir-se e pergunta:
 
- Que é que tu qué, meu irmão? Reza, missa, diz lá o que é. Se tu já morreste, fica pra lá. Não vem perturbar os vivos.
 
E, brincando sempre, levava tudo na gozação. Só que, no dia em que viu alguma coisa, que pensou depois ser assombração, não fez nada do que disse.
Ninguém podia duvidar que ele era corajoso. Disto já era provas em diversas ocasiões. E brigava bem.
 
Num dia de folga, em que os “dançarás” não funcionavam, Vinícius saiu trocando pernas pelo bairro do Marco. Desceu a Almirante Barroso e já se aproximando ao Largo de São Braz encontrou uma garota de branco, com o vestido clássico de “merengueira”: decotado, curto para a época em que ainda não havia minissaia. Vinícius pensou: - Taí, vou “baixar” nesta “miquimba”.
 
 
 Avenida Almirante Barroso. Ao fundo: Mercado de São Brás (antigo Largo de São Brás)
 
 
E dirigiu-se à moça:
 
- Que é que há, minha filha? Noite tá fria, boa pra fazer neném, hein?
Vinícius era assim. Nada de meias palavras. Era objetivo, direto, “entrava forte” mesmo.

A moça permaneceu como estava. Respondeu ao cumprimento e foi o bastante para o soldado colocar o braço pela suas costas. Conversa vai, conversa vem, Vinícius falando sempre, e a moça respondendo mais por monossílabos.

Saíram andando em direção a Canudos, pois ela havia dito que morava “para lá” indicando com o braço a entrada daquele bairro. O soldado tentara beijá-la várias vezes, e a moça sempre virava para o lado, de modo que Vinícius praticamente não pôde ver-lhe o rosto.

- Mas tu é metida a virgem, hein! E dizendo isto Vinícius tirou o braço das costas da moça, segurando-lhe a mão. Ao primeiro contado, Vinícius sentiu-se arrepiar: a mão da moça parecia gelo. Mas procurou raciocinar. Ora, a noite estava fria.

Naturalmente era por esta razão. Mesmo assim Vinícius começou a arrepender-se de ter “baixado” naquela “miquimba”.
Continuaram andando Canudos adentro, na direção do Bairro de Santa Izabel. Vinícius falou:

- Mas tu mora longe, menina. Puxa vida! Depois de uma caminhada dessas, se tem de descançar. Porque, do contrário, o neném que a gente vai fazer já vai nascer cansado!

- Já estamos perto de onde moro. É logo ali.

Ao chegarem a uma esquina, a jovem parou.

- Rapaz, tu és muito corajoso! Gostei de ti, sabes? Mas é melhor que te vás embora. Não quero que te aconteça nada de mal.

Vinícius ficou admirado do rumo das coisas. A moça continuava de lado, sem virar-se de frente.

- Mas que é que me pode acontecer de mal? Tu é amigada? Ou é de teu “xodó” que tás com medo? De qualquer forma, se tu quisé ir comigo, é só dizer que vou. Ninguém é mais homem do que eu. Logo, digo pra ele que tu quiseste vir e pronto! E se ele quisé se balançar, não te incomoda que não vou apanhar, não.

- Não é nada disso. Não tenho “xodó”, nem ninguém. Apenas deves ir embora. Eu te admirei muito e por isto estou sendo tua amiga. Eu não posso ir contigo, nem tu deves ir onde moro.

Estou falando para teu bem. Adeus.

Ante ao desfecho inesperado, Vinícius titubeou um momento. Em seguida, segurou a moça violentamente pelo braço, puxou-a, colocando-a a sua frente, enquanto falava:

- Tu não vais me…

As palavras morreram em sua boca. Ia dizer: - Tu não vais me fazer de besta, não! Mas o que viu deixou-o paralisado. Quando terminou o movimento e ela ficou de frente, olhou para o seu rosto, procurando-lhe os olhos e então viu que sua face era alguma coisa informe, ou melhor, era como se ela não a tivesse. 
Aterrorizado, Vinícius recuou. A moça calmamente virou de costas, começou a andar, dizendo:


 
- Eu te avisei…

E dobrou a esquina.

Vinícius estava apavorado. Contudo, refletiu um momento e, sendo corajoso, rapidamente seguiu-a.

Para surpresa de Vinícius, não havia ninguém. A moça havia sumido. Ainda chegou a pensar que havia entrado numa casa qualquer próxima à esquina. Certificou-se que tal não tinha acontecido, que a moça sumira mesmo. Vinícius ficou todo arrepiado. Quis se mexer e não conseguiu. Só então tomou consciência que estava próximo ao Cemitério de Santa Izabel.


Quando pôde se mexer, Vinícius saiu em desabalada carreira por dentro de Canudos e, sem parar,subiu a Almirante Barroso até o Parque de Aeronáutica.

Foi surpresa geral quando Vinícius chegou todo afobado, cansado, gaguejando e sem conseguir dizer nada. Os poucos soldados que estavam acordados providenciaram água com açúcar, e, depois de muito tempo, conseguiu relatar sua história, jurando que todo aquele tempo estivera conversando com um fantasma.

Apesar de sua expressão de pavor, alguns ficaram incrédulos.

- Só depois é que reparei que ela não virava o rosto na minha direção. Aliás, não lhe vi a face.

E era gelada, meu irmão, vou te contar. Esta mulher não era gente viva, não era, não! Eu é que não quero acordo com estas coisas.

Troçaram com Vinícius.

- Taí, tá vendo o que dá andar querendo conquistar todo mundo? Vai nessa, vai!

Daí em diante, Vinícius, quando queria “baixar” em uma “miquimba”, olhava seu relógio. Se era tarde da noite, podia ser a mulher mais linda do mundo, que Vinícius ficava fora da jogada…e dizia:

- Eu, hein!"
 
 
Já imaginaram uma situação assim? Gostaram? Me digam o que acharam e até a próxima!
 
 

19 comentários:

  1. OI Suzana, tudo bem? Amei a sua ideia desses posts relacionados ao Halloween, apesar de morrer de medo dessas histórias kkkk. Li essa lenda e agora estou pesando... Como vou dormir essa noite. Parabéns e sucesso sempre! Bjs
    http://www.facesemlivros.com/

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  2. Olá,

    Adoro lendas urbanas e achei super divertida esta da sua cidade. Acho que vou escrever algumas da minha cidade também no blog, adorei a dica de verdade.

    Abraços,
    Cá Entre Nós

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  3. Oi!
    Acho lendas urbanas um máximo huahau, gostei muito dessa, com certeza ele nunca mais deu uma de conquistador rsrs
    Bjs
    Meus Piores Pensamentos

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  4. Olha confesso que mês de outubro para mim se eu pudesse passar batido eu passaria, eu não suporto o mês por diversos fatores pessoais mas enfim. Eu sou cagona para coisas de terror assumo kkkk
    Ficou legal sua postagem e agora to aqui morrendo de medo kkkkk

    Beijos

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  5. Oie, tudo bem? Adoro coisas relacionadas ao Halloween, então adorei sua ideia de fazer mais posts sobre isso: mas não sou grande fã de lendas urbanas.

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  6. Olá,
    Achei bem legal saber sobre esse causo da sua cidade natal!
    Tenho visto bastante gente trazendo coisas super legais acerca do Halloween e fiquei curiosa para conhecer mais lendas de Belém! Mal posso esperar pelas próximas postagens.

    http://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

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  7. Adorei o post!! E a FORMA COMO FOI ESCRITO <3

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  8. Imaginar??? Nunquinha! Sou muito medrosa até pra imaginar!rsrs
    Gostei do respeito à linguagem, da lenda, mas pensei que Vinicius não voltaria para contá-la!rsrs


    Bjs,
    Yohana Sanfer
    http://www.papelpalavracoracao.com.br/

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  9. ahahahahh foda a história... amo esses 'causos' de assombração... aqui pelo interior de Pernambuco tem muito disso também... já ouvi dessa história, mas com variações... ^^
    vou adorar ler mais posts desse tipo por aqui...
    bjs ^^

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  10. Bem criativa a ideia de trazer lendas de sua terra, publicado por um autor. Adoro essas lendas, e não nenhum pouquinho cético para não acreditar. Vou acompanhar as próximas que virão.

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  11. Oiiii
    Adorei essa ideia de trazer histórias assustadoras nesse mês das bruxas, parabéns... muito bacana! Ainda mais que gosto muuuito de histórias e filmes de terror...
    Bjokas

    http://thehouseofstorie.blogspot.com.br/

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  12. Oi, acho bem legal essas lendas urbanas e ter um livro só delas da sua cidade, que eu saiba, não tem da minha e prefiro nem saber, pois sou muito medrosa e se souber não saio mais de casa,kkkkkkk
    Não consigo imaginar uma historia como essa nunquinha. Achei bem legal trazer essas lendas, bem original.
    bjus

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  13. Olá, adoro essas lendas urbanas, pois sou fascinada pelo gênero...essa época é a minha preferida, pois direciono minhas leituras para os livros de suspense e terror.

    Não conhecia esse e fiquei super curiosa quando você mencionou que ela é da sua cidade...será que a minha tem alguma...kkkk

    Abraços

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  14. Oie
    eu amo uma lenda, uma história de terror, então adoreeeei hahahahah muito bom

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  15. Suzana, sou uma pessoa meio medrosa demais.
    Não dá pra mim essa coisa de lenda com história de terror.
    Mas achei bem legal a lenda.

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  16. Oi, Suzy! Adorei o conto! Bem diferente. Gostei da forma como vc colocou fotos para mostrar o lugar, mesmo que hoje já seja diferente. Espero ler mais lendas por aqui. Achei muito bacana o post.
    Beijos

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  17. Olá,

    Goste bastante, também gostei do dialeto. Adoro conhecer histórias de outras regiões!

    Beijos!

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  18. Ai que conto gostoso de se ler, não é tão apavorante mas te tira da zona de conforto, haha.

    Beijos

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  19. Oii, tudo bem?
    Adoro esse clima de Halloweem historia super assustadoras.
    Amei o post.
    Bjs Leituras da Mary ♡♡

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